Os pianos adormecidos

Olá! Gostaria de compartilhar aqui um texto de Murray Schafer, que faz parte do livro O Ouvido Pensante.

Piano
Foto tirada por Yueshi Zhang

Esse é um longo caminho desde o piano. Durante os últimos duzentos anos, o piano tem sido o ponto focal de todos os estudos de música: o piano como orquestra Ersatz (substituto – em alemão no original), o piano como instrumento acompanhador, o piano como solista líder e heroico em seu próprio direito, o piano como arqui-símbolo de uma era de fazer música e de instituições relacionadas com sua promulgação.

Hoje os pianos, nos subúrbios, estão adormecidos.

Os dedos dos jovens voltaram-se, em toda parte, para a guitarra, o saxofone e o potenciômetro, e o piano começou a parecer um esquife decorativo.

Ah, sim, é verdade que algumas mãozinhas ainda aprendem a tocar Mistress Mary para os festivais de música. E então?

“O quê! Dezesseis anos e ainda estuda piano?”, disse a tia, certa vez, a uma jovem francesa que, casualmente, estava me ajudando neste livro.

Hoje os pianos, nos subúrbios, estão adormecidos.

O piano é um instrumento planejado para sala de estar, apontou o sociólogo Max Weber, um divertimento idealizado para os invernos do Norte da Europa. Todas as grandes composições para piano foram escritas por pessoas do Norte. Saindo do frio de arrepiar os ossos, elas vieram esquentar seus dedos bem protegidos nos teclados ardentes.

Os sulistas, que planejam suas casas dissolvidas em jardins, preferem instrumentos portáteis, o violão e o bandolim, que podem ser levados para as alamedas sombreadas ou para os pátios enluarados.

Hoje, novamente, a sala de concerto mudou.

A nova orquestra é o universo.

O concerto de piano é um fantasma em seu reduto. E há algo fantasmagórico nas instituições em que ele permanece.

Mas vamos sempre abrigar alguns grandes pianos em nossa companhia. Seu tesouro-museu é de grande beleza. Você não será esquecido, mas sempre nos encantará com as lembranças de seus memoráveis amores.

Conte-nos como Mozart tocou você,
como Beethoven tempestuosamente se embebedou com você,
como Schumann fez você ficar acordado até tarde da noite,
como Liszt o cavalgou como um garanhão selvagem,
como Debussy pintou você de azul,
como Stravinsky o confundiu com um relógio parado,
e como John Cage rompeu suas ligas.

Sopre história em nossos ouvidos.
Pois a atividade mudou-se para outro lugar, e você é muito grande para ser levado para lá…
Adeus, piano adormecido…
Você expôs bem seu caso.
Deixe agora que outros exponham os deles.
– Murray Schafer, educador musical

Sim, Schafer tem razão. Os pianos se calaram, foram adormecidos. Pobres instrumentos grandes e pesados, substituídos por instrumentos mais leves e práticos. Trocados por teclados eletrônicos que tentam – em vão – imitar seus sons.

Mas eu não posso ficar calada diante disso! Se os pianos estão adormecidos, serei eu a despertá-los de seu sono profundo com um beijo!!

Texto relacionado: a queda do interesse pelo piano no Brasil
Outro texto inspirado pelo Schafer: O silêncio existe?

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3 Responses to Os pianos adormecidos

  1. Gostei do texto. Gosto do lado por trás da música, e é legal ver que certos instrumentos saem ou entram na moda. Estava ouvindo um podcast do Fábio Zanon algumas semanas atrás e ele fala do preconceito que havia contra o violão, em como não havia obras compostas para ele, e que quando havia eram mais comumente executadas no piano. É legal notar como a situação se inverteu.

    O piano tem contra ele o custo. É fácil comprar um violão, violino, flauta ou similares. Já um piano… Fora que a manutenção parece ser mais cara. A Adele colocou no topo uma música composta só de piano e vocal, então a situação talvez não esteja tão perdida assim :D Torço pra que vc consiga realizar o que realiza, quem sabe um dia eu não ouço sua obra dedicada à Lavender Town na rádio ou de fundo em algum filme?

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