Não é só trancar o semestre: por que não fazer o EAD não é uma escolha

Minha rotina de quarentena: acordar, tomar café, ver notícias horríveis, ler um texto, ver o post diário sobre o EAD no grupo da Unicamp.

A Unicamp suspendeu as atividades presenciais no dia 13 de março. Foi pioneira, inclusive a princípio foi criticada pelos reitores da USP e da Unesp, que na semana seguinte acabaram suspendendo também. Foi uma decisão acertada, mas logo veio a determinação de que o semestre continuaria com aulas online…

Então o movimento estudantil começou a fazer consultas para ver o que estudantes estavam achando disso. Logo centros acadêmicos começaram a se posicionar contra a continuidade do semestre com atividades online. A APG-IA escreveu uma carta aberta sobre a pandemia e porque o EAD feito às pressas na Unicamp nem deveria ser chamado de EAD, depois a APG Central também se posicionou pela suspensão das atividades online. Também acho interessante colocar aqui a carta de centros acadêmicos de psicologia do país inteiro falando sobre os efeitos da continuidade das aulas na saúde mental de estudantes, a carta do Fórum das Seis (associações docentes da Unicamp, USP e Unesp junto com sindicatos de funcionárias/os) e a carta do Conselho de Representantes de Unidade (os Centros Acadêmicos) da Unicamp. Não vou falar nesse post sobre os argumentos a favor da suspensão das aulas porque isso já foi feito exaustivamente em todos esses links que coloquei.


Quem fez essa imagem foi a Cla maravilhosa, vá ver as artes dela

O objetivo deste post é falar sobre o principal argumento das pessoas:

“Fazer as aulas online é uma opção, se você não quiser é só trancar o semestre.” Veja bem, uma opção é uma escolha, uma preferência. Por exemplo, o curso de Música exige dois semestres de disciplina de idioma dentre francês, alemão ou inglês. Eu escolhi fazer francês, se quisesse fazer alemão, poderia ter feito. Isso é uma opção. Estudantes que não têm computador ou não têm acesso a Internet ou a Internet é muito instável não conseguem fazer essa escolha. Para essas pessoas, fazer as disciplinas não é uma opção.

“A Unicamp está emprestando computadores e tablets e vai dar chips de Internet”. Verdade, houve essa iniciativa da Unicamp e não vou dizer que não foi uma boa iniciativa, é louvável e digna de todos os elogios que têm recebido da grande mídia, mas ela tem vários problemas. Vamos lá: primeiro de tudo que os materiais começaram a ser entregues na semana passada, sendo que a maioria das disciplinas não parou e tem continuado online desde a metade de março. Ou seja, mesmo estudantes que estão pegando os computadores agora estão com um atraso enorme. Não faria muito mais sentido proporcionar o acesso primeiro e dar continuidade depois que houvesse a garantia de que a maioria das/os estudantes conseguiria acompanhar as disciplinas? Ok, o segundo problema é que a entrega dos materiais está sendo realizada na Unicamp. Mas muitos estudantes voltaram para suas cidades distantes e não há nenhuma previsão de se/como/quando esses materiais serão enviados a eles. Aqui eu destaco principalmente estudantes indígenas. Eu perguntei em uma live que a Unicamp fez há umas duas semanas se já tinham um jeito de enviar e a resposta que recebi foi “Não estava nos nossos planos os indígenas voltarem para suas cidades rs”. Gente, por favor, né, é natural que as pessoas queiram ficar com suas famílias em um momento de pandemia. Mas ter condições de acompanhar o semestre também é permanência. Não basta só fazer o vestibular indígena e depois eles que lutem, sabe. E tem mais um problema aqui: alguns estudantes receberam o empréstimo do tablet, porém precisam usar softwares específicos nas disciplinas que não funcionam em tablet. Ou seja, não basta apenas ter um equipamento para acessar a Internet…

“Tá, mas mesmo quem não consegue fazer pode trancar o semestre sem prejuízo, teve aumento de um ano na integralização”. Ok, o prazo pra se formar foi aumentado, isso é ótimo. Mas não dá pra falar que não há prejuízo. Se uma parte da turma consegue realizar as disciplinas e outra parte não, é óbvio que as pessoas que não conseguem fazer as disciplinas estão sendo prejudicadas. Além disso, vamos pensar em quem tem as condições materiais mas decide trancar o semestre por não estar em condições psicológicas, por ter dificuldade de aprendizado com esse sistema online, por ter que cuidar de familiares ou quaisquer outros motivos. Vamos dizer que a pessoa escolheu desistir de algumas disciplinas e/ou trancar o semestre. Essa não é uma escolha fácil. Nós vivemos em uma sociedade que cobra muito a produtividade, sem falar na meritocracia, e dentro da universidade isso é muito acentuado. Tenho amigas e amigos na pós que estão surtando porque não conseguem produzir, escrever, trabalhar na pesquisa (e dia sim, dia não eu surto também). Não deveria ser um momento para essas cobranças. Então imagina como a pessoa vai se sentir se não estiver dando conta. Sabe, no Conselho Universitário (onde sou representante discente) tenho que ouvir que é um absurdo falar que professores não têm bom senso. Francamente, eu estou no movimento estudantil desde a graduação. Existe uma relação de poder e os professores sabem disso muito bem. Eu já vi muito professor bombando aluno por pura perseguição (principalmente perseguição política), falando “Enquanto eu for professor dessa matéria você não vai passar nela”. As pessoas também têm receio de ficarem marcadas.

“Mas se cancelar o semestre, não dá pra pagar as bolsas”. O reitor disse no Conselho Universitário que as federais que suspenderam as aulas não estão pagando as bolsas, mas enquanto ele falava isso nós estávamos no chat falando de universidades federais que sabemos que estão pagando as bolsas mesmo com a suspensão do calendário. (depois disso nas reuniões seguintes o chat foi cortado. risos.) Nós fomos atrás de todas as federais? Não, ainda não fiz isso. (talvez eu faça) Mas acho que se tivessem cortado as bolsas teria um escândalo sobre isso… Outra coisa, na última semana a Unicamp mudou o nome e função da Bolsa Auxílio Transporte, então isso pra mim é mais do que prova que se tiver boa vontade dá pra pagar as bolsas, sim. A Unicamp é ótima “criando jabuticabas”, como as atividades não-presenciais que não são EAD (é o argumento que estão usando mas a gente fala EAD porque é mais curto), os cursos de especialização modalidade extensão que são como se fossem lato sensu mas não são lato sensu… Ah, tem uma diferença entre cancelamento de semestre e suspensão do calendário. A proposta sempre foi a suspensão para fazer uma readequação depois, de forma que TODAS E TODOS continuem juntos, porque isso é igualdade.

“Mas o Atila disse que o isolamento vai durar até 2022, vocês querem que a universidade não tenha aulas até lá?” Eu não sei o que vai acontecer no país daqui uma semana, imagina pensar tão longe assim. Não, eu não tenho a resposta pra isso. Na verdade, ninguém tem. O ideal vai ser fazer um curso EAD de qualquer jeito? Imagina quem fizer a maior parte do curso assim? Não dá pra não dizer que isso é extremamente prejudicial, já que praticamente todos os professores (até os favoráveis à continuidade das atividades) assumiram que as aulas têm uma qualidade menor dessa forma. A Unicamp não é uma universidade EAD. Então, não tenho a solução a longo prazo, mas o que sei é que agora a melhor solução não era fazer às pressas pra salvar o semestre a qualquer custo. Teria sido muito melhor pensar com calma, tentar resolver os problemas de acesso primeiro, dialogar com docentes e estudantes – porque isso NÃO aconteceu. Muito pelo contrário, nós, representantes discentes, fomos tratados com uma hostilidade que eu nunca tinha visto em todas as tentativas de diálogo. Fomos acusados de sermos grupos políticos tentando se aproveitar da situação, falaram que era melhor a gente distribuir cesta básica e procurar doação de computador… Francamente, viu, é um desrespeito muito grande e quando desrespeitam a representação discente estão desrespeitando também todos os estudantes passando por dificuldades.

“Isso tudo é muito mimimi”. Beleza, você admitiu que não se importa com as outras pessoas. Mas tem gente que se importa. Tchau. (◕ᴗ◕✿)


não sei a autoria


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