Fim de semana nos pianos do metrô de São Paulo

Então, meu fim de semana foi assim. Pra quem não sabe, existe o projeto Piano no Metrô, que disponibiliza pianos de armário em algumas estações de São Paulo. São as estações Sé, Tamanduateí, Santana e Largo Treze. Também existem pianos nas estações Luz e Pinheiros, vindos de outro projeto, o Pianos de Rua. E há mais um piano “público” na rodoviária do Tietê.

Vamos dar o reconhecimento a quem merece: os pianos Fritz Dobbert do projeto Piano no Metrô foram doados pela Cinemagia, empresa responsável pelo Projeto Encontros, uma iniciativa cultural que leva atrações gratuitas para a população nas estações Paraíso e Corinthians-Itaquera. Fiquei sabendo disso graças a um comentário neste post! Também descobri que perdi um piano: existe um quinto piano do projeto, na estação Paraíso!

Este é um post três em um. Ele serve como diário de viagem, review dos pianos e um pouquinho sobre meus estudos pro vestibular.

Piano Terminal Rodoviário Tietê

O vestibular

Então vamos começar pelo começo. Pra quem ainda não sabe, estou prestando licenciatura em música. A prova prática de aptidão exige, entre outras coisas, que você toque uma peça de livre escolha (dado um certo nível de dificuldade) no instrumento de sua preferência. Eu vou tocar Passa, Passa, Gavião, uma ciranda do Heitor Villa-Lobos.

A USP tem prova de aptidão antecipada; foi no começo de outubro. E na hora me deu um nervoso e eu não consegui tocar a peça direito. Sabe nervosismo de tocar em público combinado com nervosismo de prova de vestibular? Então. Pra garantir que isso não se repita, resolvi praticar tocando nos pianos públicos de São Paulo e, assim, ganhar mais confiança e perder o nervosismo.

Como é tocar em um piano público?

Eu gosto de tocar em pianos públicos. Muito. Acho super legal poder levar a música pro povo. Os pianos ficam em lugares com um grande fluxo de pessoas; a maioria passa reto. Mas alguns param, ficam ouvindo por alguns minutos, cumprimentam, tocam também… Você vai encontrar todo tipo de pessoa. Por exemplo, uma vez passei uma noite na rodoviária junto com o Wien, e conhecemos lá outro pianista, um cantor e um flautista, que tocaram junto com a gente. É uma experiência muito boa!

Se você fica nervoso ao tocar em público, tente abstrair sua mente das pessoas que eventualmente estejam ao seu redor. Como disse, a maioria passa reto, mas se tiver umas duas pessoas paradas, mais gente vai parar. Eu já consegui juntar um grupo de seis a dez pessoas, tocando o tico-tico no fubá na Sé – aí eu fui “expulsa” por um coral que apareceu lá. Como disse, você vai encontrar todo tipo de pessoas!

A sonoridade não é muito boa. Além dos pianos não serem afinados com frequência (me pergunto se algum dia foram afinados…), é um lugar público. Tem muita gente passando, conversando, metrô, trânsito… Isso é ruim, mas também tem uma vantagem para quem está praticando: como não dá pra ouvir perfeitamente o som, alguns errinhos pequenos – esbarrada em tecla, nota errada – passam despercebidos. O negócio é continuar tocando sem parar!

Meu repertório

As músicas que toquei nos pianos foram as seguintes (link pra vídeo meu no youtube):

Onde fiquei mais tempo, repeti algumas músicas. O gavião eu toquei umas três vezes em cada piano. Precisava decorar mais músicas eruditas pra tocar… Como eu prefiro tocar essas com partitura, acabo não decorando. ;_;

E, olhando meus vídeos agora, lembrei que também sabia tocar a Balamb Garden e a Mime’s Requiem de cor… Quando fico muito tempo sem tocar, acabo esquecendo que sei! Podia ter tocado essas também.

Ok, agora vamos aos pianos

Então, decidida a ser uma pianista andarilha, arrumei minhas coisas e segui viagem – moro em Campinas.

What's in your bag
What’s in your bag

I’m on a ride, on a ride, I’m a passenger ♫~

Um mapa do transporte de São Paulo pra ajudar quem não está familiarizado.

Terminal Rodoviário Tietê (estação Portuguesa-Tietê, linha azul)

Piano Terminal Rodoviário Tietê

O ônibus de Campinas para na rodoviária do Tietê, a maior de São Paulo. E lá tem um piano de cauda! Ele fica no café Paneria. É só você pedir pra tocar e pronto. Fiz um post à parte sobre ele aqui.

O piano não é afinado, os pés dele ficam cheios de pó às vezes, tem uma tecla que afunda… mas é um bom piano, gosto muito dele. Esse é o melhor lugar pra juntar os amigos e ficarem tocando por um tempão até perder a noção do tempo! Só tenha a consideração de comprar alguma coisa no café se levar os amigos e ocuparem uma mesa, né? O outro pianista que eu e o Wien conhecemos lá comprava cerveja em outro lugar (mais barato…) e ia tomar e tocar, era muito cara-de-pau! :’D

E, como tem mesas e cadeiras, tem um público maior. Lá é o melhor lugar pra conseguir aplausos. E… presentes. Uma mulher deu um livro de turismo pro Wien e uma caneta pra mim. Só porque ele tocou Chopin… ლ(ಠ益ಠლ)

A propósito, olha aqui um registro da nossa noite junto com o pianista da cerveja:

No sábado, fiquei lá tocando por uma hora. Aplaudiram o Gavião, o que é um bom sinal. Não tinha certeza se essa música teria um bom índice de apreciação, já que ela não é muito “melódica” – é até meio tensa. Mas como ela é bem rápida, deve dar uma sensação de “wow, que foda” e por isso os aplausos. Uma moça veio falar comigo, acompanhada pelo seu pai. Ela reconheceu a To Zanarkand, apesar de não saber de onde. Foram eles que tiraram minhas fotos – todas as fotos foram gentilmente tiradas por alguma pessoa que veio falar comigo.

Tamanduateí (linha verde)

Piano no metrô

O lugar onde o piano está – atrás dele é aberto – garante que ele tenha uma sonoridade ótima. Mas esse piano ganha o prêmio de mais desafinado de todos. É incômodo demais, tanto que foi o que eu menos toquei – uns vinte minutos, talvez.

Tinha um moço tocando. Nós conversamos sobre como o piano estava desafinado; ele disse que nunca foi afinado desde que foi colocado lá. Ele me contou também que o piano da Luz está destruído. Segundo ele, algumas teclas estão quebradas e roubaram peças de dentro do piano (!!!). Gente, pera… Roubar parafuso de piano não dá… Sério… .-. Mas isso deve acontecer porque o piano fica do lado de fora do metrô; fica mais difícil de vigiar. Pelo menos me poupou uma passagem de metrô, já que eu pretendia passar na Luz também. Aliás, pra quem não sabe como funciona o metrô (tipo quem mora em Bambuí)… Pagando uma passagem, você pode andar em quantos metrôs quiser. Você só precisa pagar de novo se sair do metrô, ou seja, se passar pela catraca. Nessas minhas andanças em busca dos pianos, eu gastei apenas R$ 5,80 – uma passagem por dia.

Voltando ao piano de Tamanduateí, em certo momento o moço me disse, após tocar uma música: “Você não tá reconhecendo nada, né? É que eu não toco música secular, só hinos.”

Er. Ok.

Sé (linha vermelha/azul)

Piano no Metrô

O de Tamanduateí é o mais desafinado. Mas esse é o mais “estragado”. Fiquei tão triste, ele estava bem pior do que na última vez que toquei, em junho. O som não sai!! Antes, tocando com toda a força da minha alma, eu conseguia tirar algum som do piano. Mas agora, mesmo assim, algumas teclas não soam de jeito nenhum. ಥ_ಥ

Mesmo com essa fraqueza sonora, ainda dá pra atrair pessoas – na verdade, a Sé é o lugar em que mais pessoas vêm falar com você. Veio um senhor que contou que a mãe dele tocava piano e que ficou emocionado. Pedi pra ele tirar uma foto. Ele aceitou, mas… a foto não saiu… ;__; Acho que ele não apertou o botão com força suficiente. Por isso coloquei uma foto antiga aqui. Se o piano não estivesse tão ruim, teria voltado no dia seguinte, mas nem tive vontade.

Um baterista também veio conversar comigo pra matar o tempo enquanto a amiga dele não aparecia. Passei o endereço do blog pra ele. (Se você estiver me lendo, oi!) Depois, uma senhora ficou me observando e resolvi conversar com ela. Descobri que ela estava aprendendo a tocar, e tinha um livro de hinos! Então eu fiquei segurando o livro enquanto ela tocava, pras páginas não virarem com o vento :’) Dona Odete mandou bem pra quem tá começando. Precisa ter força pra tocar naquele piano!

Fiquei lá quase uma hora e assim encerrei as atividades pianísticas desse dia.

Largo Treze (linha lilás)

Piano no metrô

Ah, linha lilás. Aquela que liga o nada ao lugar nenhum. De todas as estações, essa é a menos movimentada. Talvez por isso mesmo esse piano… Esse piano. Ele ganhou o prêmio de melhor piano no metrô. É o menos desafinado, as teclas estão perfeitas, a sonoridade do lugar é boa. Dá gosto de tocar! ❤

Só é uma pena que, por ser o lugar menos movimentado, pouca gente pare pra prestar atenção. Fiquei lá por uma hora e só fui aplaudida por uma senhora (o Gavião de novo), cumprimentada rapidamente por um hippie e um homem veio falar comigo. Ele disse que estava ouvindo da plataforma lá embaixo. É legal saber que o som chega até lá!

Pinheiros (linha amarela)

Pianos de rua

Esse piano, assim como o piano da Luz, faz parte do projeto Pianos de Rua. São pianos colocados em diversos lugares. O Piano no Metrô coloca Fritz Dobberts, e esse coloca Zimmermanns.

Dei uma olhada no piano. Teclas moles, som “fraco”. Como Essenfelder. Não gosto de pianos assim. (gosto pessoal) Mas o pior… Não tem banqueta! Ou tinha e roubaram, sei lá. Alguns metrôs colocaram um fio prendendo a banqueta ao piano. Enfim… tocar piano em pé é uó, não dá. Fui pro próximo.

Santana (linha azul)

Piano no metrô

Cheguei em Santana e tinha uma senhora tocando. Parei pra ouvir, música legal. Em dois minutos ela parou, olhou pra mim e pra uma outra senhora que estava ouvindo e perguntou se alguém queria tocar. Eu disse que não, resolvi deixar ela tocar mais um pouco. E ela começou a tocar. E foi tocando. E tocando. E tocando. Sem parar uma única vez. Não estou brincando, ela ficou 45 minutos sem tirar as mãos do piano pra uma única pausa na música (sério mesmo, eu olhei no relógio)!!!

Mas ainda bem que eu perseverei lá por quase uma hora. Esse ganha o prêmio de segundo melhor piano. Fiquei tocando, algumas pessoas vieram me cumprimentar e, quando notei que tinha dois parados há umas três músicas, perguntei se queriam tocar. Um deles falou pra eu tocar mais um pouco e depois ele tocaria. Então eu toquei por mais uns minutos e saí. Fiquei lá uns 40 minutos.

Depois disso, encerrei minha jornada musical e fui pra casa do meu namorado. ♡ (outra grande viagem de metrô)

Conclusão?

Meu gavião passou por diversos pianos públicos. Espero que ele me faça passar na Unesp. As provas de aptidão serão nos dias 11 e 14 de dezembro. Agora preciso começar a me preocupar mais com o Hino da Independência, que terei que cantar. Pra treinar cantar em público, provavelmente vou cantar no Ibirapuera e, talvez, gravar. Bom, lá no Ibirapuera acontece tanta coisa estranha, não vai ser tão anormal uma menina cantando sobre as ímpias falanges que apresentam face hostil.

Provavelmente vou gravar o Passa, Passa, Gavião também. Eu estava fazendo “vlogs” pra mostrar meu desempenho, mas acabei não dando continuidade. De qualquer forma, prometo que, se passar na Unesp, vou tocar em um piano público toda semana!

E voltando aos pianos públicos, quando cheguei no Tietê, e em Tamanduateí também, minhas mãos tremiam ao tocar. Mas no dia seguinte eu já estava mais tranquila e confiante. Minhas mãos não tremiam mais. Então acho que minha peregrinação valeu a pena. Agora já posso aceitar o título de Patty K, a pianista andarilha! ★

Epílogo

Recebi neste post um comentário do Aluizio, do Departamento de Marketing do Metrô de São Paulo! Ele disse que vão contratar uma empresa para fazer manutenção constante nos pianos do metrô! Que maravilha!! Até janeiro todos eles já devem estar um primor! Fiquei muito feliz!

Cabelo novo

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25 Responses to Fim de semana nos pianos do metrô de São Paulo

  1. Caramba, que post fantástico!

    Antes de mais nada, nem imaginava que rolavam pianos públicos no metrô de São Paulo. Vou procurar saber se tem algo parecido aqui no Rio, mas duvido.

    Sensacional você se dedicar a conhecer esses pianos e fazer este post. Sério, ficou incrível, tá tudo perfeito: as fotos, o conteúdo, a ideia em si… maravilha de post.

  2. Isso é tão… Inusitado. Nunca imaginaria uma coisa dessas, ainda mais na cidade assim. Sei lá.

    Só uma curiosidade: Esse projeto é muito novo? Eu lembro que estive em São Paulo em março desse ano e não encontrei piano algum. Vai ver não vi direito.

  3. Também achei muito bacana essa ideia de pianos públicos. Aqui em Manaus só tinha um piano público na Biblioteca Municipal e toda vez que eu 'sentava para tocar alguma coisa' terminava sendo enxotada porque o piano era para exposição, não para uso. (Sentido, cadê você, oi?)
    Não toco muito bem, eu sei. Mas tneho umas duas ou três músicas decoradas, não custava nada deixar a pobre criatura dedilhar e ver se o pessoal se interessava pela biblioteca vazia. LOL

    De qualquer forma, achei muito bom o post. <3
    A Paatty K é uma linda~ Queria vê-la tocando piano ao vivo – tipo do meu lado, entende? 8D

  4. São posts como este que me fazem ter vergonha de trabalhar de segunda a sábado e ficar domingo jogando videogame. Muito bacana isso, muito bacana mesmo. Me lembra dos flautistas hippies que ficavam tocando na minha cidade de vez em quando. Alegram o dia de qualquer um. Boa sorte com o vestibular, embora eu acredite que você não precisa ^^

  5. Patricia,
    Fiquei muito feliz ao ver seu post contando como foi seu dia circulando pelos pianos do Metró. Sua jornada, contada em detalhes desde a preparaçao da viagem até sua experiência das apresentações em público certamente incentivarão outros músicos percorrerem esse mesmo roteiro. Lamento muito que tenha encontrado os pianos desafinados mas quero informar que isso vai acabar. Estamos em processo de contratação de uma empresa que faça a afinação e a manutenção dos pianos de forma permanente, para garantir que você encontre os pianos sempre em ordem e com boa sonoridade. Me avise quando vier tocar de novo. Acredito que em janeiro/2012 já estejam todos em forma!

    Aluizio Gibson
    Departamento de Marketing do Metrô de São Paulo

  6. Olá Patrícia, adorei ler seu comentário sobre os pianos "públicos". De fato, a iniciativa mostra a preocupação em difundir a arte e dar espaço para novos talentos, na verdade os talentos anônimos. Talvez os mais interessantes, pois são espontâneos.
    Os 5 Fritz Dobberts foram doados para o Metrô pela Cinemagia, empresa gestora do projeto Encontros culturais nas estações Paraíso e Corinthians-Itaquera.
    O Marcos Pinho tem razão, vale a pena conhecer o piano e o espaço do projeto Encontros na est.Paraíso.
    Parabéns e sucesso nas suas empreitadas. ;)

  7. Patrícia!

    Que lindo ver você disponibilizando a sua arte!O mundo precisa de mais pessoas assim.

    Continue distribuindo com seu talento.

    Parabéns!

  8. Só um detalhe, o piano de cauda acima, não é do projeto metro, e nem é da rodoviária!!! Faz 2 anos que toco lá profissionalmente, o piano é da Paneria cafe.

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